terça-feira, 31 de janeiro de 2012

Ser comunidade, para ser igreja…

Gosto muito de sonhar. E os sonhos que mais me encantam são os que me acontecem quando estou acordado, porque esses me fazem arregaçar as mangas e lutar por eles.

Estes sonhos comprometem-me…

Assumo-os como projeto, e ganho razões para lutar, e ganho uma mão cheia de bons motivos para sorrir…

Há uns tempos, dei comigo a sonhar que a minha Igreja era mais parecida com o que Jesus Cristo a chama a ser…

Sonhei que todos os cristãos do mundo, todos os que somos Igreja, tínhamos de novo sentado aos pés de Jesus, no cimo de um monte qualquer, como bons discípulos que bebem das palavras do mestre os segredos fundamentais das suas vidas.


Quando sonhei, vi uma multidão de homens e mulheres de todas as raças, línguas e nações, unidos em torno da mesma Fé. No meu sonho, fiquei a espreitá-los demoradamente, e apercebi-me que todos se amavam, todos se sentiam conhecidos e seguros entre si.

Dei-me conta facilmente que eram muitos, mas não se deixavam engolir pela lógica da multidão!

Eram muitos, mas não eram uma massa incógnita de gente desconhecida. Sorri, então, ao dar-me conta de que a “Igreja da Multidão” não existia mais, e se tinha convertido numa Universal Comunhão de Comunidades! A Igreja voltava ao ritmo comunitário com que tinha nascido. Todos percebiam que a Igreja não é um lugar sagrado, mas uma Comunidade Consagrada, a comunidade dos que escutam as palavras de Jesus:

“Onde dois ou mais se reunirem em meu Nome, eu estarei com eles…” (Mt 18.20).

Todos se percebiam como “Pedras Vivas” da Igreja que formavam (1 Pe 2.5).
  
Na comunidade todos os olhares se cruzavam, todos os rostos se saudavam e todas as vidas se enriqueciam mutuamente. Ninguém se sentia a mais, nem desnecessário. Todos tinham vez e voz, todos eram participantes. Por isso eram comunidades vivas, que meditavam, oravam e celebravam ao jeito de Jesus de Nazaré.

Nesta Igreja dos meus sonhos, as celebrações da Fé eram espaços privilegiados de libertação, encontro com Deus e com os irmãos, recomeço de vida.

Não havia classes ou elites mais importantes que outras. Todos eram fundamentais para tudo; porque tudo era de todos… Todos se sentiam sujeitos responsáveis pela vida da comunidade. Por isso, a Igreja era animada pela diversidade dos carismas de todos. Todos sabiam que os carismas não são dons caídos magicamente do céu, mas as suas próprias qualidades e capacidades postas ao serviço dos irmãos.

Cada um era reconhecido e amado na sua originalidade. Todos se sentiam acolhidos nas suas diferenças, o que possibilitava que todos estivessem em permanente dinâmica de amadurecimento interior.

Todos eram verdadeiramente exigentes consigo próprios, e tolerantes com os irmãos.

Não consegui ver, durante todo o tempo que durou o meu sonho, ninguém que me parecesse medíocre, ou vaidoso. Ninguém impunha as suas ideias, mas ninguém deixava de partilhá-las e propor.

Quando partilhavam entre si as suas vidas à luz da Palavra de Deus, faziam-no sem reservas, sem inseguranças e sem piedosas superficialidades. Deixavam-se pôr em causa pela Palavra, deixavam-se provocar por ela, levavam Deus a sério e acolhiam os irmãos como sua mediação.

Quando falavam de Deus nunca precisavam debater doutrinas. Pareceu-me que nem as tinham!

Nem precisavam… Não precisavam de doutrinas aprendidas, porque saboreavam a Verdade de Deus experimentada na própria vida e amadurecida em diálogo comunitário.

Conversavam de Deus com um brilho intenso no olhar e com um entusiasmo contagioso nas palavras. Deus era o centro das suas vidas, o mais importante dos seus dias. Falavam dele como o melhor que lhes tinha acontecido…

E quando oravam… ó amigo, que diferença!... Quando oravam pousavam tudo, e fechavam os olhos com ar de quem tem uma confidência importante a fazer. E tinham… Começavam a conversar com Deus como se conversa com o melhor amigo, em profunda intimidade, verdade e realidade. Não lhes escutei nem uma única frase feita! Na sua relação com Deus, todos tinham dado o salto do “Ele” ao “Tu”. Ninguém disse nada decorado, ninguém disse palavras mágicas… Todos sabiam que a “magia” de Deus acontece ao nível do coração que se deixa encontrar por ele…

Eu lembro-me que me senti apaixonado por esta Igreja…

Onde cada um tinha a sua função, segundo o seu carisma, e todos se sentiam verdadeiramente como membros vivos do Corpo de Cristo no mundo. Todos percebiam que ser o Corpo de Cristo Ressuscitado no mundo, significa tornar-se mediação de encontro entre Cristo e todos os Homens do mundo que ainda não o conhecem como Dador de Vida Nova.

Todos compreendiam e assumiam que ser Corpo de Cristo é ser continuação de Cristo no mundo como instrumento do seu Espírito.

Lembro-me que, no meu sonho, também chegou a hora de acordar…

Mas acordar não me deixou triste. Arregacei as mangas, esbugalhei os olhos e disse:
“É possível! Vale a pena! Está em minhas mãos! Eu sou Igreja!”

E senti que o próprio Cristo me bateu nas costas e disse: “Até que enfim que posso contar contigo!”

Talvez ainda fosse parte do sonho, mas não interessa. O importante é que compreendi que a Igreja pode ser mais perfeitamente o que está chamada a ser, se eu for mais Igreja.

Desde então, comecei a viver em função deste sonho de uma Igreja Renascida nas Palavras de Jesus Ressuscitado: “Ide e evangelizai todos os povos… Eu estarei sempre convosco!” (Mt 28.19-20)

Comecei a perseguir o Espírito, a deixar-me levar por onde me conduzia…

O Espírito mostrou-me que a Igreja já foi mais Igreja de Jesus Cristo do que é hoje…

Mas, acima de tudo, mostrou-me que amanhã está ainda por nascer, Cristo continua a fundar a sua Igreja todos os dias, e hoje precisa de mim…

Não sou perfeito, não sou o melhor… mas estou disponível a ser mais! E é destes que Cristo precisa para realizar este seu sonho que se chama Igreja.

Os perfeitos normalmente andam ocupados, os melhores estão longe… resto eu, que estou disponível.

E tu, amigo… Sim, também restas tu… se estiveres disponível já seremos dois.

Dois!

Estás a ver o sonho a realizar-se?... Não vês?... Já somos dois… Olha ao longe e verás.
Olha que tudo pode renascer…




(Rui Santiago)

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